28 de fev. de 2011

Tudo pode dar certo. Mas tem que seguir a receita.


Você está em casa e resolve sair. Quer ir ao cinema. Pesquisa em um jornal ou na internet qual filme e qual sessão pegar. Decide ir naquele que está em exibição em todos os shoppings da cidade. Pode ser porque tem aquele ator que você gosta, ou o título te chamou a atenção, ou, se bobear, a resumidíssima sinopse do jornal te atraiu. Talvez pode ser a continuação daquele filmaço. Ou a adaptação do livro sensacional que você leu alguns meses atrás.

Você chega no shopping. Se for de carro, paga X no estacionamento. Na bilheteria paga 2Y pelo ingresso (o seu e de sua namorada ou namorado). Claro, não falta a pipoca tamanho G e a Coca-Cola tamanho GG, tudo isso pelo valor Z.

Depois de uma hora e meia, duas horas, você sai do cinema satisfeito. Se chegou a pensar no dinheiro, concluirá que o gasto de X + 2Y + Z valeu a pena. Mesmo se o filme for aquele que você já sabe o final no primeiro minuto da projeção, que tem personagens que você já viu mais de quinhentas vezes em outras obras diferentes, aqueles clichês que reconhece desde sempre. Sim. Pagou feliz para ver algo que você sabe como é, sabe como termina, já viu em trocentas outras oportunidades e não traz nada de novo. E não só você. Milhões de pessoas também tiveram um gasto parecido.

No início de "Tudo Pode Dar Certo", Boris, personagem de Larry David, coloca você, eu, o público, no foco da discussão. Ele olha para a câmera e diz: "Há uma plateia lotada olhando para nós. Eles pagaram grana alta pelos ingressos para que um idiota de Hollywood possa comprar uma piscina maior". E questiona o que você está fazendo sentado na sala de cinema: "Por que querem saber a minha história? Nos conhecemos? Nos gostamos?"

Pelo início, já é perceptível o grande objetivo de "Tudo Pode Dar Certo". Mas, como em muitas obras de Woody Allen, o tema pode passar despercebido e o filme ser absorvido como uma comédia engraçada e passageira. Também é assim com "Vicky Cristina Barcelona". Diálogos inspirados, personagens interessantes e situações cômicas não decepcionam os que estão à procura de um filme agradável, feito para rir. Mas "Tudo Pode Dar Certo" é mais.



O filme, ao longo de sua duração, escancara uma grande crítica à indústria hollywoodiana e ao público de cinema que ela criou. Aliás, ninguém melhor que Allen para falar sobre isso: um diretor novaiorquino, que não tem público no seu país e cujos projetos nenhum produtor americano está muito disposto a bancar.

Para realizar sua crítica, Allen brinca com a mesma fonte daqueles que questiona. Mas faz de forma consciente, proposital, exagerada e sarcástica. Essa escolha torna "Tudo Pode Dar Certo" uma grande obra. Se o público gasta seu dinheiro feliz com um filme-padrão, então é isto que eles terão.

O roteiro de qualquer bom filme precisa de um conflito. Mas um filme-padrão precisa deixar o conflito muito claro. Ele subestima seu público ao achar que o espectador não vai perceber algo um pouco mais sutil. Ora, quer conflito mais claro do que o relacionamento entre Boris, um velho, novaiorquino, hipocondríaco, mal-humorado, sarcástico, suicida (David) e Melody, uma garota do interior de 21 anos, ingênua, meio tapada, de coração maior que o mundo e feliz da vida (Evan Rachel Wood)? Em filmes mais clássicos, o personagem sofre uma mudança. Vai passando por episódios que o transformam. Começa de um jeito e termina de outro. Nas boas produções, a mudança é feita com personalidade, charme, inteligência e respeito ao público. No filme-padrão ela é óbvia e inverossímil. Em "Tudo Pode Dar Certo", a personagem de Patricia Clarkson, mãe da garota vivida por Evan Rachel Wood, começa sua participação como o clichê da mulher do interior: brega, religiosa, alcóolatra e preconceituosa. Ela vai para Nova York à procura da filha e, em questão de algumas cenas, vira o clichê da artista: liberada sexualmente, se relaciona com dois homens ao mesmo tempo, usa bandana na cabeça e é blasé. A mesma coisa com a personagem de Wood. Se no início Melody é a garota tapada que não fala nada muito profundo, do meio para o fim de "Tudo Pode Dar Certo" começa a proferir as teorias de Boris, mesmo não fazendo muito sentido no contexto em que ela as diz.

Os filmes-padrão também abusam dos clichês e personagens estereotipados. Allen também abusa, conscientemente e de forma crítica, dos estereótipos. Da mulher do interior, do gay (decorador, amante da arte), do sedutor (carismático, charmoso, bonito, insistente, vive em uma casa flutuante). E mais. O diretor brinca com uma das coisas que mais me irrita nos filmes-padrão. Neles, tudo é tão esquemático e fabricado que não há nenhum charme, autenticidade e personalidade. Para parecer que é original e fazer com que o público se sinta inteligente e, ainda por cima, conseguir amarrar tudo que está solto, esse tipo de obra usa o artifício do final surpreendente. Algo cai do céu para fechar todas as pontas. Você percebe isto em "Tudo Pode Dar Certo" quando algo, literalmente, cai do céu.

Mas a grande tacada de mestre de Allen é colocar em questão o grande criador de um filme-padrão. O roteirista-padrão. O roteirista, em uma definição bem rápida, é aquele que cria a história e os personagens. O roteirista-padrão cria, conscientemente, os personagens estereotipados, o conflito óbvio, a mudança inverossímil, os clichês. Ele sabe que está desenvolvendo uma trama que não tira o espectador de sua zona de conforto. Mas faz mesmo assim, pois é o que parece dar retorno para os produtores de Hollywood. É muito inteligente, portanto, a escolha de Larry David como o protagonista de "Tudo Pode Dar Certo" e é mais inteligente ainda a postura do personagem ao longo do filme.

David foi roteirista de "Saturday Night Live" e "Seinfeld", além de escrever e protagonizar o seriado "Curb Your Enthusiasm". Em "Tudo Pode Dar Certo", seu personagem, Boris, se autoproclama como um ser superior, um gênio. Também se dirige ao público várias vezes e todos os outros personagens pensam que é uma atitude insensata. No fim, ao conversar conosco, ele explica: "Viu? Sou o único que vê a situação inteira . É isso que eles querem dizer com gênio".

Ora, o roteirista-padrão é aquele que conhece os ingredientes de um filme-padrão, sabe como usá-los, sabe que não resultarão em um filme diferente de vários outros que já existem e sabe que, mesmo assim, terá um bom público, que irá pagar para ver repetecos. E na visão da indústria hollywoodiana, um cara que conhece os ingredientes e sabe fazer a receita que dê retorno financeiro, só pode ser um gênio.

A narrativa sacrificada

Apesar de serem bem diferentes a princípio, há uma semelhança entre o seriado "Glee" e "Comer, Rezar, Amar" no que diz respeito a Ryan Murphy, criador do primeiro e diretor e roteirista do segundo. Murphy não se leva nem um pouco a sério. Quer apenas divertir. E sacrifica a sua narrativa em nome desse entretenimento. Em outras palavras, suas histórias são apenas uma desculpa para cenas divertidas ou que causam bem-estar nos espectadores.



Vejamos o caso de "Glee". Seu pontapé inicial é dado por um professor de espanhol que tenta reerguer o coral do colégio onde trabalha (e onde estudou) que, um dia, foi motivo de orgulho. O projeto atrai uma série de alunos talentosos. Ele são, porém, os típicos losers americanos, minorias, nerds etc. Como se trata de um colégio conservador, o professor percebe que o projeto só atrairia financiamento se alguns alunos populares, bonitos e fortes se juntassem a eles.

Se "Glee" for analisado friamente, é perceptível que não tem uma estrutura sólida. Os personagens mudam demais. Só para deixar um exemplo, há um episódio no qual Rachel Barry, a protagonista, se apaixona perdidamente pelo professor. Em nenhum momento anterior ela deu a menor pista que sentiria qualquer afeição por ele. Mas, como é um episódio de baladas românticas, ninguém achou estranho mudar completamente a personalidade de um personagem se é para o bem da música. Seria algo como se Homer, em um episódio dos Simpsons, deixasse de ser o bobalhão que é e virasse um poço de sensatez.

É arriscado mudar a personalidade dos personagens em seriados. É um produto narrativo criado para durar um tempo maior. Portanto, quem o acompanha, se afeiçoa pelos personagens do jeito que eles são e uma mudança é um risco. Mas, em "Glee", a sensação que dá é que os episódios são criados a partir das cenas musicais e de referências à cultura pop. Dessa forma, sacrificar o roteiro em nome da diversão parece não ser um problema para Murphy.



Em "Comer, Rezar, Amar" existe a mesma falta de preocupação com a história em nome de um outro objetivo: fazer o público se sentir bem. É essa a intenção quando Liz Gilbert (Julia Roberts), na Itália, devora uma pizza inteira sem culpa, percebe que a numeração da calça que usava aumentou e conclui que “tudo bem, o mundo não mudou porque ela engordou, a vida não acabou porque ela não seguiu as regras da beleza”. Liz, ao longo do filme, aprende a curtir os prazeres da vida e percebe que tem muita coisa boa a se tirar disso. É um filme que tenta dar aquela sensação de espírito revigorado, de alma satisfeita. O que não surpreende, porque é o que a gente espera de um livro de auto-ajuda.

Daí nasce o perigo das adaptações desse tipo de obra. Não li muitas, mas elas não tem muito de visual. É, basicamente, um autor dando conselhos a partir de uma teoria qualquer ou relatando experiências pessoais que, de alguma forma, acreditam inspirar as pessoas. E, provavelmente, dão a sensação de saciedade, afinal, são livros que normalmente encabeçam a lista de mais vendidos. Se alguém resolve adaptar um livro de auto-ajuda para o cinema é preciso pensar em certos aspectos. Um roteirista pode adaptar a lista telefônica, se quiser. Mas, se vai se arriscar a isso, seria preciso um ponto de vista, uma história a ser contada e a ideia de que o cinema é uma arte, acima de tudo, visual.

Passamos quase duas horas e meia vendo a personagem de Julia Roberts em busca de equilíbrio. Mas como Ryan Murphy parece incapaz de demonstrar sua mudança através de atitudes, do desempenho de Roberts ou de qualquer outro artifício visual, ele se volta para o texto. Tudo que está mudando na vida de Gilbert é colocado através de diálogos. Ela e outras personagens parecem ser pseudo-gurus ambulantes. Mas as atitudes de Gilbert, no começo da viagem para o fim da viagem, não parecem ter uma mudança significativa. Por mais que ela fale, é difícil acreditar que algo realmente mudou.

Daí, retorno à comparação entre "Glee" e "Comer, Rezar, Amar". Se "Glee" sacrifica sua narrativa pela diversão e pela cultura pop, "Comer, Rezar, Amar" (o filme) pega de "Comer, Rezar, Amar" (o livro) uma narrativa que já não tinha como dar muito certo no cinema, apenas em nome do bem-estar. Mas a diferença é que "Glee" consegue se sustentar como um produto de entretenimento (superestimado, que não merece metade dos prêmios que ganha, mas, mesmo assim, divertido) com suas canções e referências. Já "Comer, Rezar, Amar" pode até enganar com suas mensagens de equilíbrio e de "busca do 'eu' interior". Não esconde, entretanto, um filme longo, superficial e uma protagonista com quem ninguém se importa muito e que não existe a favor de uma história. A jornada de Gilbert pode funcionar como um livro de auto-ajuda. Mas como cinema é frustrante.

Texto publicado em 21/10/2010 no site Cinematório

Quem não tem opção, caça com Sarah Jessica Parker


"Sex and the City 2" fez uma boa bilheteria de estreia. Na primeira semana arrecadou, ao redor do mundo, algo em torno dos 80 milhões de dólares. Para uma produção com críticas tão sofríveis, é uma bela bilheteria.

Isto quer dizer alguma coisa. Tudo bem, é uma sequência de um filme de sucesso. OK, é a adaptação de um seriado de TV aclamado. Mas também é um filme para mulheres. Não única e exclusivamente para elas, mas bem direcionado para o público feminino. E quem não tem grandes filmes, caça com Carrie Bradshaw.

É uma tendência para a qual os produtores de Hollywood ainda não se atentam: mulher ganha dinheiro também! Mulher quer gastar com coisas para ela! Mulher não é mais acessório para o marido levar para ver o novo do Stallone! Mulher está ávida por produtos para ela e isso não quer dizer pegar alguma coisa e pintar de rosa!

"Sex and the City 2" pode até não ser bom. O primeiro não é. Se não existisse o seriado, possivelmente não faria o mesmo sucesso. Afinal, pelo menos no longa original, o conservadorismo da trama bate de frente com o que eu imaginei sobre a série (vi alguns episódios que comprovam minha teoria, mas não assisti a todas as temporadas). No entanto, é inegável que o seriado da HBO representou algo para o sexo feminino. Algo que falava diretamente para elas. Por meia hora, a televisão falava das mulheres sem tratá-las como donas-de-casa ou esposas. Acredito que essa percepção teve um reflexo no primeiro filme e também no segundo.

A blogueira Anne Thompson fala algo interessante. Segundo ela, os críticos homens caíram em cima dos filmes "Sex and the City". Mas Thompson responde: "Esses longas não foram feitos para eles".

Talvez quando os produtores de Hollywood souberem como fazer um filme para elas (e estou falando da indústria cinematográfica americana, cheia de receitas para o sucesso em potencial) e praticarem o conhecimento adquirido, um longa de gosto questionável não fizesse tanto sucesso. Mas enquanto essas experiências forem esporádicas, elas irão atrás de Sarah Jessica Parker.

Postado originalmente em 03/06/2010 no site Cinematório

O que Crepúsculo trouxe de bom?


Nunca li um livro da saga "Crepúsculo". Até tentei. Não consegui passar da trigésima página. Achei chato. Mas isso não me dá o direito dar opinião sobre o livro como uma obra completa. Da mesma forma, os filmes. O dirigido por Catherine Hardwicke não me interessou. Também tentei ver quando passou na televisão, mas estava achando tudo tão bobo que preferi assistir a um seriado qualquer. Mas, novamente, não tenho a menor pretensão de escrever bem ou mal sobre um filme que não vi inteiro.

Minha postura, acho, é rara. Todo mundo fala mal de "Crepúsculo" e suas sequências sem sequer terem assistido ou lido as obras. Já sabem que o filme é ruim e não precisam comprovar. Talvez por todo oba-oba criado em torno dos livros de Stephanie Meyer ou pelo comportamento virtual de boa parte de seus fãs (não podem ouvir uma crítica negativa a Robert Pattinson que atacam os detratores como se suas vidas dependessem disto) ou até pelos vários comentários negativos feitos por gente que já leu ou viu o filme, criou-se uma antipatia geral em relação aos vampiros teens.

Não posso tecer opiniões – já que não li ou assisti – mas também não posso ser hipócrita. Não acho que "Crepúsculo" deve ser um exemplo de boa literatura ou bom cinema. Posso ser surpreendido, apesar de achar difícil. Mas o fenômeno trouxe benefícios para o mercado de entretenimento para adolescentes.

Estão sempre à procura de explicações dos fenômenos. Qualquer ingrediente de uma receita pode ser visto como essencial para seu sucesso. E, na indústria cultural, esse ingredientes serão explorados separadamente para ver se darão certo sozinhos. Alguns deles são duvidosos, mas pode existir alguma coisa bacana na mistura do fenômeno.

Por isso, a família Brontë agradece a Stephanie Meyer. Não sei em que circunstância o clássico “O Morro dos Ventos Uivantes” é citado na saga "Crepúsculo". Sei que é. E isso foi o suficiente para a obra de Emily Brontë ser notada de novo. E, na onda, “Jane Eyre”, da Irmã Charlotte Brontë, também entrou na lista de prioridades cinematográficas, assim como uma cinebiografia das autoras. E as adaptações dos dois romances serão contadas para os jovens. O que significa que talvez, pela primeira vez, uma turma de adolescentes terá contato com clássicos da literatura.

Por um minuto, podem parecer projetos desinteressantes. Mas quando ficamos sabendo dos cineastas por trás deles, a situação muda um pouco de figura. A nova versão cinematográfica de “O Morro dos Ventos Uivantes” será dirigida por Andrea Arnold, cineasta revelada em Cannes e realizadora do ótimo “Marcas da Vida” e do elogiado “Fish Tank”. Já “Jane Eyre” é um projeto de Cary Fukunaga, diretor de “Sim Nombre”, um dos filmes mais elogiados do ano passado, ganhador de diversos prêmios de produção estrangeira, mas que por algum motivo não chegou por aqui. São projetos que até podem ter sido pensados há mais tempo. Mas o fator “Crepúsculo” ajudou no sinal verde.

Outro ingrediente da saga vampiresca é o romance. Com o fenômeno, produtores concluíram que os adolescentes de hoje estão à procura de bons romances. E este foi o ponto de partida para o início da produção de um "Romeu e Julieta" para jovens, para o público dos fãs dos vampiros. Pode parecer um projeto oportunista, mas quem está por trás dele é Julian Fellowes, roteirista de projetos interessantes como "Assassinato em Gosford Park" e "A Jovem Rainha Vitória".

São filmes com potencial que, se não fosse pelo sucesso de “Crepúsculo”, talvez não saíriam do papel. Por isso, se você não suporta Bella Swan e companhia, pense nisso. Tudo sempre tem um lado bom.

Postado originalmente em 24/05/2010 no site Cinematório