4 de ago. de 2011

O Produto : ABACAXI



Texto publicitário para vender o produto abacaxi

SLOGAN: Docinho por dentro é o que importa

Ok. Tudo bem. Eu concordo. Posso não ser a coisa mais bonita do mundo. Esse amarelo sujo que me envolve não deve ser algo que te anime muito. E a coroa? Um verde morto que te espeta toda vez que você põe a mão... Mas experimenta tirar a minha roupa. Arranca essa coroa sem dó. Vai tirando essa casca esquisita de mim. Me deixa nu. Pronto. Agora encosta a sua boca em mim. Encosta vai, prometo que não vai se arrepender. Me morde. Me chupa. Viu como sou suculento? Gostoso? Me engole, vai!

(Trabalho do curso O Texto com Razão e Mais Emoção)

Projeto LADO B

O CEIS (Centro de Experimentação em Imagem e Som) iniciou o projeto de uma mostra de filmes desconhecidos de cineastas consagrados. Abaixo está o texto introdutório do site da mostra e um raugh do design.

NEWSLETTERS CEIS

No CEIS (Centro de Experimentação em Imagem e Som) escrevi e produzi uma série de newsletters que divulgavam acontecimentos da cena artística de Minas e do Brasil, inscrições para festivais, lançamentos de livros, coisas interessantes na web, entre outros assuntos relevantes para o Centro.
Abaixo estão os links de todos eles. E só clicar.
Uma observação: todos os textos estão como foram publicados e enviados originalmente. Foram redigidos entre 2007 e 2008, quando era estagiário do CEIS. Provavelmente, hoje, mudaria vários deles.


Impróprio para Menores

Buceta.

Foi a primeira vez que ouvi aquela palavra. Escutei bem. “Buceta”. Saiu da voz grave do meu pai. Sempre tive medo dela. Não era frequente, mas quando a ouvia , era a mesma voz pesada. Como um soco certeiro.

Outro dia cheguei em casa aos prantos e machucado. O som que me embrulha o estômago logo surgiu. O pai gritava sobre revidar, não levar desaforos para casa, não resolver os problemas como um macho deveria. Outra porrada. Sonora, mas, talvez, pior que a anterior. Deve ter sido esta a sensação da mãe. Após o “buceta” ela chorou. Alto. Escutei com a mesma clareza da temida voz.

Não podia ser bom.

Alguém chorar depois de ouvir alguma coisa só pode ter um significado muito ruim ou muito bom. Há alguns meses falei “eu te amo” para a mãe em uma apresentação da escola. Fui obrigado, na verdade. Era a parte final do teatrinho. Cada aluno ia até as suas mães e recitava “eu te amo”. Falamos a mesma coisa e falamos juntos. Olhei para o lado e vi Laurinha dizer “eu te amo", para o outro e vi Jonas dizer “eu te amo”, para frente e vi Sandra dizer “eu te amo”. Se tivéssemos ensaiado, poderia ter saído de lá um “eu te amo” sincronizado que valeria as palmas que foram batidas no fim do medíocre espetáculo mirim. Mesmo assim, o olho da mãe encheu de água e uma lágrima escorreu em sua bochecha. Ela sorria. Não entendi porque estava sorrindo. Ela me explicou sobre o choro de felicidade, de emoção, aquela coisa toda. Descobri que chorar poderia ser uma coisa boa. Mas conhecia as lágrimas de felicidade da minha mãe. Aquelas pós “buceta” não foram felizes. Chorava de tristeza. Ela nem precisava chorar para perceber que esta não era uma palavra legal. A voz do meu pai já dizia tudo.

Resolvi descobrir o que é “buceta”. Já sabia pesquisar no dicionário, afinal. Peguei o que uso na escola. Procurei naquele livrinho com a dificuldade de quem pouco o utiliza. Buba. Bubão. Bubo. Bubônico. Bucal. Bucéfalo. Buda. Nada. Lembrei-me de outro dicionário. Era imenso. Nunca vi ninguém por aqui o pegar para ler. Aliás, nunca vi alguém tê-lo comprado. Um dia, de repente, percebi sua presença. Era pesado, empoeirado e caía aos pedaços. Consegui levá-lo até minha escrivaninha. Benzidina. Benzido. Benzil. Benzilhão. Mais para frente. Bulático. Bulbáceo. Bulbar. Mais para trás. Bucéfalo. Bucelário. Bucentauro. Bucha. Nada. Mas será possível, pensei.

Logo, uma ideia mudou todo o rumo desta busca fadada ao fracasso.

Todo mundo falava “muchila”, mas na verdade se escrevia “mochila”. Devia ser esse o caso da “buceta”. Deve ser “boceta”. Voltei no dicionário. Bode. Bochecão. Bocelão. Bocelar. Bocelim. Bocelinho. Bocelino. Boceta. Enfim. Boceta. Caixinha redonda, oval ou oblonga. Caixa de rapé. Certo aparelho de pesca. Vulva. O pai nunca tinha falado em pescar antes. Ele sempre foi misterioso, de poucas palavras. Ou será que é por causa dessas caixas? Mas porque uma caixa ia fazer minha mãe chorar? Será que ele a atacou com uma? E, afinal, o que é vulva, meu Deus? Vulturídeos. Vulturino. Vulturno. Vulva. A parte exterior do aparelho genital da mulher. Geniculado. Gênio. Genioso. Genista. Genital. Relativo a geração. Que serve para geração. Geotrópico. Geotropismo. Geração. Ato de gerar. Conjunto das funções ou fenômenos pelos quais um ser organizado produz outro semelhante. Cada grau de filiação de pai e filho. Linhagem, estirpe, ascendência.Será que ele queria emprestada a parte exterior do aparelho da minha mãe que produz alguma coisa semelhante a alguma outra coisa? Dormi sem entender.

No dia seguinte, estávamos eu, a mãe e o pai sentados no sofá. Assistíamos a TV. Ela estava em uma ponta, ele na outra e eu no meio. A tela exibia uma mulher mais velha e uma mais nova. Do nada, a mais velha começou a bater na mais nova. Bater de verdade. Deu um tapa, vários chutes, jogou ela no chão, continuou a estapear. Chamou-a de nomes que se eu falasse perto da minha mãe seria eu quem levaria o tabefe. Intervalo. Olhei para os dois. Perguntei o que era “boceta”. Olharam para mim. Caras de espanto que nunca tinha visto antes. Brigaram um com o outro. Isso é coisa da sua família! Aqueles seus sobrinhos ficam ensinando bobagem pro menino! Ele só tem sete anos, que tipo de mãe é você? Fica dando liberdade para fazer qualquer coisa! Não quero mais ver ele andando com sua família! Você sempre foi um pai ausente! Eu, ausente? Dei tudo o que ele pediu! Mas desde quando isso é ser presente? Você sempre foi uma negação!

Decidi que nunca mais iria falar “boceta” de novo.

Um tempo depois da última vez que eu falei “b$%#@*]”, tive que repeti-la novamente. Meus pais me chamaram e disseram que iam se separar. Perguntei se era por causa da palavra. Que palavra? Aquela. Aquela qual? Fala a palavra de uma vez, não sei o que você quer dizer. Boceta. O que? É por isso que vocês se separaram? O olhar de espanto de meses atrás voltou. Eles fizeram todo um discurso que não prestei muita atenção.

Agora, meu pai já se foi. Minha mãe está sentada do meu lado no sofá. Hoje, o marido da mulher mais velha que bateu na mulher mais nova beijou uma terceira. E a esposa nem desconfiou.

4 de jul. de 2011

A importância de X-Men para o futuro da Marvel


A franquia “X-Men” parece cumprir uma função essencial no departamento de cinema da Marvel. O primeiro filme, dirigido por Bryan Singer e lançado em 2000, praticamente abriu as portas para a tradicional empresa de quadrinhos se aventurar nas telas grandes e construir o seu império cinematográfico. Não foi o primeiro a chegar aos cinemas (“Blade” e “Howard, The Duck” foram lançados antes), mas certamente foi a primeiro a se associar com mais força à marca Marvel e levá-la para um público mais expressivo em números.

Depois de “X-Men”, vieram “Homem-Aranha”, “Homem de Ferro”, “Hulk”, “Demolidor”, “Thor” e outros.  A chegada de "X-Men" nos cinemas é resultado de uma co-produção entre Marvel e Fox. Seu sucesso abriu as portas para outros estúdios se associarem à Marvel ("Homem-Aranha, "Demolidor") e a própria Marvel passar a produzir no cinema sozinha ("Homem de Ferro", "Thor", "Hulk"), através da Marvel Studios

Hoje, a marca é reconhecida e aparentemente estável no audiovisual. Aparentemente porque o grande problema de uma marca que cresce e ganha dinheiro demais é sacrificar uma visão empreendedora , sem riscos, e passar a repetir os mesmos passos que a fez juntar seus milhões.

Apesar de ser uma das primeiras franquias da Marvel a chegar aos cinemas, “X-Men” não é a mais rica. Enquanto os filmes da trilogia mutante nunca ultrapassaram a barreira de US$ 500 milhões nas bilheterias, os longas do “Homem-Aranha” chegaram ao redor dos US$ 800 milhões. Não que US$ 500 milhões sejam ruins, mas já que dá para fazer 800, por que não aproveitar? O que se viu, então, foi a consagração de “Homem-Aranha” como o produto “Marvel” e a subsequente repetição de sua narrativa.

O homem imaturo que se vê em uma realidade diferente, causadora de seu amadurecimento. Há o interesse amoroso, com a função de levar o filme para o romance e, algumas vezes, comédia romântica. Não é assim nos carros-chefe da Marvel Studios ? “Homem de Ferro”, “Thor” e “O Incrível Hulk”? Não é essa a impressão dada pelo trailer de “Capitão América”? Não ficamos sentados no cinema até o fim dos créditos pois sabemos que um produto Marvel tem sempre uma surpresinha final? É fácil identificar filmes da Marvel, além de seus heróis. E funcionam, certo? “Homem de Ferro” continuou a trajetória de lucros, assim como “Thor”. E, acima de tudo, são filmes divertidos.

Porém, a cada filme, a receita narrativa fica mais clara e a falta de frescor cada vez mais identificável. Certamente trata-se de uma tendência que pode condenar o “produto Marvel”. Afinal, “Homem de Ferro” lucra, mas não chega aos pés do fenômeno que foi o último “Batman”, da DC Comics e totalmente alheio ao estereótipo dos filmes de heróis. “Thor” lucra, mas sua arrecadação é menor que a de “Velozes e Furiosos 5”, o quinto filme de uma franquia que nem é tão tradicional assim.

É nesse cenário que surge “X-Men: Primeira Classe”, um novo filme e recomeço da franquia. Remonta as origens do grupo de mutantes, através das histórias do Professor Xavier e Magneto que, em um dado momento, se cruzam. Cada um deles lida com seu gene mutante da forma que a vida lhes reservou. Eric Lensherr viu a mãe morrer na sua frente e foi explorado por seus poderes mutantes. Charles Xavier teve uma vida rica financeiramente e, por isso, cheia de possibilidades, dentre elas, estudar a sua própria característica excepcional. O primeiro vê um mundo hostil aos mutantes, de impossível melhora, já que humanos, cegos em seus preconceitos, nunca conseguiriam absorver a ideia de poderes extraordinários. Xavier também percebe esse mundo hostil, mas acredita que existe esperança, que é possível a convivência pacífica entre humanos e mutantes. Apesar dos pensamentos distintos, Eric e Xavier se se tornam amigos em um primeiro momento, unidos pela causa mutante.

Daí surgem as diferenças entre “X-Men” e outros longas da Marvel os "produtos puros" da Marvel Studios. “X-Men” não é um filme sobre um personagem específico, não existe um protagonista propriamente dito. É um filme sobre um tema: a aceitação. Mas não a aceitação de mutantes por humanos, humanos por mutantes ou mutantes por outros mutantes. Essa foi a questão tratada nos filmes anteriores. Em “Primeira Classe” o mote é a aceitação dos mutantes por eles mesmos e, a partir do momento que ela ocorre, cada um lida com a própria existência e o mundo ao redor - que a influencia, de uma forma particular. Por isso, não dá para dizer que Magneto ou Xavier sejam os protagonistas do longa. O verdadeiro protagonista, se é para achar um, é a relação entre eles. É ela que, ao longo do filme, percorre um trajetória de mudança e provoca as mudanças nos caminhos de outros personagens.

Por isso que, se alguns personagens parecem rasos ou pouco dimensionais, é porque eles estão a serviço de um tema maior. Afinal, são muitas figuras que desfilam em “X-Men: Primeira Classe” e quase todas elas tem uma certa profundidade, ou seja, não são enfeites, como era a Mística e a Tempestade nos filmes anteriores. A Mística aqui, interpretada com talento por Jennifer Lawrence, é uma personagem atormentada por sua aparência, incomodada por não poder (ou conseguir) assumir o seu verdadeiro eu, por mais que queira. Toda a sua trajetória é reflexo do que sente.

Através de interessantes soluções visuais, alguns personagens menores conseguem ir além de adornos narrativos e complementam a história de uma forma mais consistente. Em uma única sequência, já conseguimos perceber que a mutante Angel Salvadore é uma menina desconfiada que, provavelmente, foi muito explorada na vida e que Havok é uma espécie de atrevido de bom coração. Claro que não se tratam de soluções geniais, mas são necessárias para o tema maior e, mais importante, são eficazes.

É esperado, portanto, que com tanto personagens, o roteiro de Matthew Vaughn, Jane Goldman, Zack Stentz e Ashley Miller não tivesse uma profundidade almodovariana para cada um. E, claro, não se trata de algo perfeito. Poderia ser um pouco maior. Talvez, se a história fosse concebida como uma trilogia, o resultado seria mais satisfatório em termos narrativos. Há alguns momentos um pouco encavalados aqui e ali, para deixar claro o que está se passando no interior dos personagens. Mas, o fato é que funciona para a construção do todo, da jornada dessa relação entre Magneto e Xavier e seus reflexos. Acreditamos na escolha de cada personagem, porque eles foram minimamente trabalhados nos minutos anteriores. O diretor Matthew Vaughn também fez uma ótima escolha ao colocar cenas reais da época do longa, como os pronunciamentos de John Kennedy (o filme é ambientado na década de 60, no auge da Guerra Fria).


Não há em “X-Men: Primeira Classe” um ingrediente claro que remeta ao “produto Marvel”. A narrativa é diferente. Aliás, assim como “Batman”, nem parece um filme de super-heróis. Está mais para um thriller com personagens mutantes.

Daí voltamos à importância da série “X-Men”. Ao sair da sala, me informaram que há uma preocupação na bilheteria de “X-Men: Primeira Classe”. Afinal, a divulgação realmente não está das melhores. E, como já comentado, a narrativa difere de outras de super-heróis por aí. Mas, por mais que a publicidade do longa merecesse um esforço maior, talvez seja um filme com a função de teste.

É uma suposição baseada em dados não confirmados, na verdade. Não consegui encontrar números oficiais, mas rumores da web dizem que o orçamento de “X-Men: Primeira Classe” foi de US$ 80 milhões. Não é confirmado, mas tudo indica que não foi orçamento mais polpudo de todos os tempos, até mesmo pelo próprio desgaste da franquia nos cinemas e pela escolha de Vaughn, um cara que já provou fazer coisas muito bacanas com pouco dinheiro (“Kick-Ass” custou US$ 50 milhões).

O fato é que o primeiro “Homem de Ferro” custou US$ 140 milhões, o segundo ficou na casa dos US$ 200 milhões, “Thor” foi realizado com US$ 150 milhões e, no fim das contas, são filmes muito parecidos. Como disse, são divertidos, mas um dia cansa. O próprio Vaughn deu algumas declarações ao jornal Los Angeles Times, indicativas do particular estado dos filmes de super-heróis. Segundo ele, ao explicar por que aceitou fazer o filme, o gênero não dura por muito mais tempo.

“Está com hora marcada e em alguns casos o controle de qualidade não é o que deveria ser. As pessoas estão ficando cansadas. (...) Sempre quis fazer um filme de super-heróis de alto orçamento e acho que ultrapassamos o Rubicon (Vaugh usa a palavra Rubicon no sentido de ‘caminho sem volta’) em relação aos filmes de super-heróis. Acho que a oportunidade de dirigir um ocorrerá mais duas ou três vezes. Depois, o gênero vai morrer por um tempo pois o público já o engoliu demais. É um campo cheio. Cheio demais.”

Pode parecer pessimista, mas é um panorama que parece se formar por motivos já expostos. É claro, portanto, que Vaughn não faria o mesmo filme de sempre. E, possivelmente, a Marvel a Fox, ao escalá-lo, não estivesse esperando o mesmo filme de sempre. Afinal, ele foi selecionado pela própria empresa para dirigir “X-Men: O Confronto Final”, antes de cair nas mãos de Brett Ratner. Em entrevista ao jornal Daily Telegraph, antes de ser escalado para realizar “X-Men: Primeira Classe”, Vaughn revelou porque decidiu abdicar da direção do longa anterior.

“Não tive tempo para realizar o filme que gostaria. Tinha uma visão sobre como deveria ser e queria ter a certeza de que estava fazendo um filme tão bom quanto ‘X-Men 2’. Sabia que não iria acontecer e vi que não era a coisa certa para mim. Foi uma decisão difícil, porque era uma puta oportunidade. Mas estava tentando construir uma carreira como diretor e não queria ser conhecido como ‘o cara que fez o filme ruim dos X-Men’.”

Daí a Marvel Fox vem e o chama para dirigir “X-Men: Primeira Classe”? Tem coisa aí, certo?  

Temos, então, um diretor que consegue fazer obras muito divertidas com pouco grana e com frescor. Dessa forma, “X-Men: Primeira Classe” é um filme com poucas cenas de ação e efeitos especiais menos espetaculares. Mas nunca é menos envolvente. Até mais, pois, aqui, nos importamos muito com seus personagens e o perigo parece real.

Além disso, “X-Men” é uma franquia que permite um risco com segurança. Primeiro porque não estamos falando de algo totalmente desconhecido pelo público. A série é notória e só o nome “X-Men” já chama a atenção. A forma como a história é desenvolvida desde sempre já diferencia da de outros personagens da Marvel. Enquanto “Thor”, “Homem de Ferro” e “Homem-Aranha” são personagens marcantes, a força de “X-Men”, por maior que seja o carisma de Wolverine, está no grupo. Dessa forma, as narrativas dos filmes são naturalmente diferenciadas. E o fato de "X-Men" ser  um produto híbrido, co-produção da Marvel com a Fox,  explica algumas soluções criativas diferentes das do produto Marvel "puro".

Por mais que Vaughn fale da morte dos filmes de super-heróis, acredito que ele estava muito consciente da importância dos mutantes para o gênero. Posso estar sendo extremamente otimista ao falar isso, mas talvez o seu filme abra  os olhos da Marvel Studios para um novo ângulo de narrativa ou ajude a criar uma ideia no público de que os longas de super-heróis ainda podem surpreender. Afinal, a Marvel é uma empresa e como toda grande empresa, vez ou outra, é preciso arriscar. O público muda e se cansa, e apostar eternamente em uma mesma fórmula é um dos grandes erros e razão da morte de muitas empresas.

Enfim, enquanto existir alguém disposto a recriar e reinventar a franquia do “X-Men”, os super-heróis cinematográficos respiram mais aliviados.

ATUALIZAÇÃO 04/06 12:28: O leitor Alexandre Luiz, nos comentários, disse algo de extrema importância que deixei passar na primeira versão do texto. "X-Men: Primeira Classe"é uma co-produção Marvel e Fox e a segunda toma boa parte das decisões. Há algumas correções (e elas estão destacadas) e novas informações no artigo em função disso.

Originalmente publicado aqui , no site Cinematório

27 de abr. de 2011

Um projeto e quatro links | Ballerina Project

Alguém teve a ideia de fotografar bailarinas em diversos cenários urbanos, como um projeto colaborativo de dança, moda, design e fotografia.

Nasceu o Ballerina Project, que descobri via Revista Galileu de maio.

Os quatro links

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Animação brasileira e mercado: qual é o cenário?

As discussões sobre a animação como um lucrativo negócio estão em alta como nunca. Hoje, no jornal "Valor Econômico", foi publicada uma grande reportagem sobre o tema. Intitulada "Produzir desenho animado no Brasil não é mais aventura" (acesso para assinantes), a matéria, escrita por Moacir Drska, discorre sobre iniciativas que fortaleceram e ainda fortalecem o mercado.



Uma das razões do mercado "quente", segundo a matéria, é o bem-sucedido trajeto de apostas animadas na TV por assinatura. O pioneirismo de Peixonauta, da TV Pinguim; Princesas do Mar, da Flamma Films; Escola para Cachorro, da Mixer; e Meu Amigãozão, da 2D Lab; e dos canais pagos onde são exibidos, Discovery Kids e Nickelodeon, provou a capacidade nacional de produzir séries animadas de qualidade e competitivas em termos de audiência. Tão competitivos que alguns deles já migraram para a TV aberta. Na semana passada, o SBT anunciou a aquisição dos direitos de exibição de Peixonauta. A Globo irá exibir a série de animação do Sítio do Picapau Amarelo, produzido pela Mixer.

Mas esse sucesso não poderia ser um fenômeno isolado. Era preciso incentivá-lo e fortalecê-lo. Daí nasceram uma série de iniciativas. Uma delas, já de conhecimento de muita gente, são os mecanismos do governo para o incentivo à animação. O AnimaTV é um. No último ano, destinou quase 4 milhões para a produção de 17 pilotos de série animada. Duas, Tromba-Trem, da Copa Studio, e Carrapatos e Catapultas, da Zoom Elefante, tiveram suas temporadas completas produzidas (aqui , os dias e horários que serão exibidos na TV Brasil e na TV Cultura). 



Outro mecanismo aparece com o Banco Nacional de Desenvolvimento, o BNDES. A segunda temporada de "Escola para Cachorros" teve 3,5 milhões de seu orçamento oriundos do banco, através do Procult, Programa BNDES para Desenvolvimento da Economia da Cultura. Segundo Drska, 15 projetos receberam 8,2 milhões do banco.

 No caso de "Escola para Cachorro",o fato da Mixer ter uma parceria de co-produção com a canadense Cité-Amerique foi visto pelo BNDES como uma segurança do potencial de vendas no mercado externo. O que nos leva à outra iniciativa listada na matéria do Valor: as parcerias fora do país. O alto custo das animações é uma das razões para a procura de co-produções internacionais. Segundo a declaração do diretor da Mixer ao Valor, é um sistema adotado em vários países, exceto aqueles onde o mercado de animação já é forte (leia-se Estados Unidos e Japão).



No caso de parcerias existem duas opções: uma é a prestação de serviços e o outro é o investimento de propriedade intelectual. O segundo caso se torna mais interessante devido ao possível ganho com outros produtos relacionados à animação. A TV Pinguim já tem uma série de produtos licenciados, adaptações para internet, livros, cinema, tablets, celulares, teatro. Também é o caso da Mixer e da Flamma Films e seus projetos. Nem preciso comentar o capital gerado pela animação da Turma da Mônica e seus outros produtos licenciados. Segundo o Valor, o licenciamento é a fonte de renda MAIS ATRATIVA do mercado de animação. Afinal, o poder de transmedia storytelling da animação, ou seja, histórias diferentes, os mesmos personagens, contadas em diversas mídias, resulta em um ciclo de vida maior em relação à outras soluções audiovisuais.

Originalmente publicado no blog Animação Brasileira

26 de abr. de 2011

A trilogia Millenium e a obsessão da narrativa americana por nobres heróis

Män som hatar kvinnor, Flickan som lekte med elden e Luftslottet som sprängdes são os títulos originais dos livros da Trilogia Millenium, escrito pelo falecido Stieg Larsson. No Brasil, foram batizados pela Companhia das Letras como Os Homens Que Não Amavam as Mulheres, A Menina Que Brincava com Fogo e A Rainha do Castelo de Ar. Traduções quase fiéis. Há um pequeno desvio da fidelidade no terceiro livro, apenas. Literalmente, o nome sueco significa algo como "O castelo que ruiu".

Nada comparado aos nomes escolhidos para as edições em língua inglesa da trilogia: The Girl With the Dragon Tatoo (A Garota com a Tatuagem de Dragão), The Girl Who Played With Fire (A Garota que Brincava com Fogo) e The Girl Who Kicked the Hornes´s Nest ( algo como A Garota Que Chutou o Ninho da Vespa - eu sei que existe uma palavra melhor para substituir este 'kicked', mas, no momento, não me vem à mente).

Em um resumo muito porco, a trilogia inicia com a investigação do desaparecimento da sobrinha de um magnata por um jornalisa, Mikail Bloomkvist, e uma hacker antissocial, Lisbeth Salander. Ao longo dos três livros, os personagens são envolvidos em crimes relacionados ao tráfico de mulheres e abusos do poder. 

Quando começamos a ouvir notícias sobre o sucesso da obra de Larsson, os títulos americanos eram apresentados como originais. Como o sueco anda em falta na carga horária das escolas, tratar um livro como The Girl With The Dragon Tatoo é mais simples do que tratá-lo como Män som hatar kvinnor.

Enfim, li Os Homens Que Não Amavam as Mulheres com o The Girl With the Dragon Tattoo na cabeça. O incômodo foi inevitável. Qual era a razão para este título nas publicações para a língua inglesa? O primeiro livro não é sobre Lisbeth Salander, ela não é a protagonista isolada e muito menos a heroína. O fato de ter uma tatuagem de dragão é mencionado algumas vezes, mas não é determinante para a história.

A narrativa clássica conhece a importância de um herói, aquele personagem que podemos não concordar em relação às atitudes, mas nos identificamos e torcemos por ele. Indiana Jones, Bourne, Harry Potter, Batman e outros. No caso dos livros de Stieg Larsson, era preciso deixar claro quem era o herói.

Longe de mim me opor aos heróis. São vitais para a narrativa. Mas a escolha americana dos títulos da trilogia Millenium engana um pouco os leitores. Como disse, o propósito parece ser não deixar dúvidas da existência de alguém para os leitores torcerem. A impressão que passa, entretanto, é a de uma série de três livros separados, unidos por uma personagem protagonista, a "The Girl", que vive aventuras diferentes em cada um deles, com início, meio e fim.

Não cometa este engano. Os livros de Larsson devem ser lidos como uma obra única. O primeiro é até completo. Se você ler Os Homens Que Não Amavam as Mulheres terminará satisfeito. Você pode não gostar, mas o completará com uma percepção de início, meio e fim. Mas, ao ler A Menina Que Brincava com Fogo e A Rainha do Castelo de Ar, será possível perceber que se trata de uma grande história de mais de 1500 páginas.

Larsson deveria saber que vender um livro de 1500 páginas seria como exibir um filme de 7 horas no cinema. E devia conhecer a necessidade de uma boa impressão da estréia para a aprovação de uma possível segunda parte. Lançar o primeiro livro apenas como o trecho de uma grande aventura seria arriscado. Poderia ser visto como um trabalho sem finalidade ou objetivo. Quando Larsson escreve Os Homens Que Não Amavam as Mulheres como uma obra completa, ele dá a satisfação de jornada completa aos seus leitores. Mas, ao escrevê-la, parece ter sempre em mente que se trata de um trabalho maior.

Talvez, pela percepção errada, me incomodei tanto com o segundo livro, A Menina Que Brincava com Fogo. Parecia que ia do nada para lugar nenhum. Mas, na verdade, era o meio de uma enorme história.

Lisbeth Salander é sim a heroína - da trilogia inteira, não de um ou outro livro - mas não no sentido que o título em inglês tenta nos fazer pensar. Não é a mulher destemida que resolve todos os problemas, não é guiada por ideais altruístas, tem atitudes bem duvidosas e questionáveis. É apenas uma personagem que se vê no centro de uma intrincada teia e quer que parem de encher o seu saco. E, sem pedir, acaba recebendo a ajuda de um bocado de gente.

A Trilogia Milleniun é um policial de primeira. Mas, apenas se os três livros forem analisados como uma obra única. E não se trata aqui de um "As Aventuras de Lisbeth Salander". Talvez, Os Homens Que Não Amavam as Mulheres é a melhor forma de nomear a obra completa. Porque, no fim das contas, é uma trilogia sobre a mulher. A forma como ela é percebida em oposição à sua capacidade real.

25 de abr. de 2011

Dramaturgia em série de animação


Animação não é só a técnica pura. Uma boa história e soluções técnicas que ajudam a contá-la é vital para um projeto animado.

A bibliografia sobre dramaturgia em animação sempre foi pobre no Brasil. Na última semana ficou um pouco mais rica com o lançamento do livro "Dramaturgia  de Série de Animação", escrito por Ségio Nesteriuk. 

O livro passa pela história da animação no país, técnicas e histórico da narrativa seriada (que é completamente diferente da narrativa para cinema), elementos da animação aplicados à história e alguns estudos de caso.

Não li o livro inteiro. Pela palestra de lançamento, feita pelo próprio Nesteriuk, parece ser uma obra interessante e um importante item para a bibliografia tanto de animadores quanto roteiristas. Sem contar que, no final da obra, há uma excelente lista de livros sobre o tema. 

E mais. No campo da dramaturgia não existem verdades absolutas. Existem formas mais eficazes, mas é tudo muito relativo. O livro, porém, faz parte de um projeto da AnimaTV e Nesteriuk é consultor de dramaturgia do AnimaTV. Quer dizer, provavelmente, é a dramaturgia que o programa do governo que estimula o desenvolvimento do mercado da animação espera. 

"Dramaturgia em Série de Animação" está disponível em Creative Commons. É só clicar aqui embaixo:




Publicado originalmente no blog Animação Brasileira

7 de abr. de 2011

Os ditadores e a internet

O Repórter Sem Fronteiras é uma ONG com o objetivo de defender a liberdade de imprensa no mundo. Para divulgar o Twitter do braço espanhol da organização, a agência Saatchi & Saatchi criou uma campanha que, apesar de lembrar muito um outro projeto, não deixa de ser interessante.

Com o slogan "o meio muda, a verdade continua", a campanha apresenta imagens de três ditadores bem conhecidos pela falta de apreço à liberdade de imprensa. Porém, nelas, Kadaffi, Mugabe e Ahmadinejad foram atingidos pelos excrementos de um inoportuno passarinho.





Para quem ainda não captou a ideia, reparem  na logo do Twitter, no canto superior das peças acima.

É inevitável lembrar da campanha de uma outra organização, a Sociedade Internacional de Direitos Humanos. Lançada há mais tempo, mostra ditadores acuados por um mouse. Põe  a internet como um meio extremamente poderoso, capaz de amedrontar ditadores ou até mesmo derrubar governos.



O papel da rede como libertadora de países opressores foi muito discutido com o levante tunisiano, egípcio e líbio. Egveny Morozov, autor de The Net Delusion: The Dark Side of Internet Freedom foi especialmente abordado pela imprensa brasileira sobre o assunto. Cheguei a ler entrevistas de Morozov em, pelo menos, quatro publicações nacionais. Segundo ele, não foi o Facebook a grande razão da ruína dos regimes ditatoriais árabes. Foi consequência de insatisfações reais. No caso do Egito e na Tunísia, a rede auxiliou na organização dos protestos. Já na Líbia não parece ter um papel relevante. E Morozov lembra: ditadores também tem acesso à web e usam para a opressão.

Apesar de parecida, a campanha da Saatchi parece ter um ângulo. É mais discreta. Não afirma que o Repórter Sem Fronteiras pode de derrubar governos.Mas continuará incomodando os ditadores. Sendo uma pedra no sapato. Ou, no caso, uma mancha de cocô em impecáveis ternos.

10 de mar. de 2011

A ficção como realmente deveria ser

Encontrei o vídeo abaixo no site  Papo de Homem e como este é um blog que pretende falar de narrativas, acho válido postá-lo por aqui.

Poderia fazer toda uma introdução, mas o post do Papo de Homem está muito completo e bacana. Clique aqui para ler. 

Em resumo, é a paletra da escritora turca Elif Shakaf para o TED. Fala sobre como a ficção salvou uma garota tímida, isolada e vista como um estereótipo (a própria) e como a narrativa ficcional é vista como algo maior do que realmente é. Como se fosse obrigação da literatura reforçar os clichês culturais.

9 de mar. de 2011

Pela experiência completa da boa narrativa


As histórias nos envolvem. A não ser que o objetivo de seu criador seja outro, as boas histórias, sejam elas contadas em livros, cinema ou TV, nos envolvem.

Não é que elas nos fazem esquecer da realidade, como afirmou a toda-poderosa Oprah Winfrey ao apresentar a categoria de melhor documentário no Oscar deste ano. Segundo ela, enquanto os filmes de ficção nos fazem sair do mundo que vivemos, os documentários jogam as mazelas nas nossas caras. Ora, é preciso ser um pouco alienado para acreditar nisso. A ficção não é necessariamente uma válvula de escape. E os documentários não deixam de contar as suas histórias. E eles são bons quando nos fazem entrar nas narrativas que propõem. Estar imerso em uma história não é fugir da realidade. Ás vezes, é se envolver em uma outra realidade. Seja ela exposta através  de ficção ou documentário.

Porém, imersão total nas histórias cinematográficas se tornou uma missão quase impossível. Celulares, pacotes de alumínio, público mal-educado que conversa, comenta, namora, beija e esquece dos outros são apenas alguns problemas externos.

O pior é quando o clima é interrompido pelo próprio filme. Provavelmente você já se deparou com a marca de algum produto estampado na tela grande. Sim, existe uma propaganda no meio do filme e ela te fez sair completamente do processo de imersão que se iniciou há alguns minutos.

Não sou contra a inserção de publicidade nas obras. É até saudável para pensarmos em um mercado cinematográfico brasileiro, em uma indústria de filmes de qualidade, que cada vez mais se torna necessária. Mas o mínimo esperado é essa publicidade não prejudicar a experiência cinematográfica, não fazer o público sair da história para prestar atenção na marca. Uma propaganda deveria fluir com a narrativa. Além de respeitar o público, certamente traz mais resultados.

Por isso, fico satisfeito ao ler à seguinte matéria do Estadão, escrita por Alexandre Rodrigues:

Dois adolescentes recorrem a uma garrafa de Coca-Cola para turbinar sua performance num, digamos, curioso campeonato de arrotos. A cena combina com o cotidiano de qualquer garoto, mas não parece o roteiro ideal de uma propaganda de refrigerante. No entanto, fez sucesso no cinema, cada vez mais interessado em incluir publicidade no cotidiano de seus personagens.

Com a explosão de bilheteria do cinema nacional, que coleciona sucessos como Tropa de Elite 2 e seus mais de 1,2 milhão de espectadores, a publicidade busca mais espaço nas telas. Além dos comerciais entre trailers, aproveita janelas nos roteiros para inserir marcas e produtos no meio dos filmes.

Com o aumento do volume e do público de produções nacionais, o publicitário Antonio Jorge Pinheiro, dono da consultoria carioca Mídia 1, resolveu criar uma área específica só para pensar ações do gênero. Nada mais do que o velho "merchandising".

A Mídia 1 está por trás do campeonato de arrotos protagonizada no cinema por dois personagens do filme Desenrola, de Rosane Svartman. O filme levou mais de 300 mil espectadores ao cinema neste verão, a maioria adolescentes como os personagens do longa que conta a história de uma jovem de 16 anos que se vê sozinha em casa pela primeira vez. As cenas deixaram espaço para muitos produtos voltados para esse público.

Para ler a matéria completa, clique aqui

5 de mar. de 2011

Vik Muniz e a derrota de Lixo Extraordinário



Fizemos um filme sobre como tranformar lixo em dinheiro e deram um Oscar para um sobre como transformar dinheiro em lixo
A frase acima é de Vik Muniz, o artista plástico brasileiro e personagem do documentário "Lixo Extraordinário".

Só um comentário: bom cinema não é feito de boas intenções.

3 de mar. de 2011

E os Estados Unidos serão salvos pelos árabes


É muita coisa para ler em relação à convulsão árabe contra suas ditaduras.

Já li abordagens diversas. Focada na estrutura política da Líbia, textos que superestimam a importância  das redes sociais no Egito e Tunísia, outros mais equilibrados, outros que tentam interpretar a personalidades dos ditadores que caíram e ditadores que persistem. Sobre o papel de Obama no cenário explosivo, sobre o islamismo no contexto geral. Enfim. É muita coisa..

No meio do oceano, uma gota se destacou. Um excelente texto escrito por Andrew J. Bacevich, professor de História da Universidade de Boston. Ele diz que a revolução árabe é mérito dos próprios. E vai além. Diz como eles poderão salvar os Estados Unidos. Conhece? Aquele país que costuma ser o juíz do mundo.

Leitura obrigatória. Em inglês aqui e em português aqui.

"Se as massas muçulmanas que reivindicam liberdade política e oportunidades econômicas vencerem, terão conseguido isso não graças, mas apesar dos EUA. Entretanto, libertando-se por conta própria, elas também nos libertarão. Nossa cruzada mal concebida para determinar o destino que lhes cabe finalmente terminará. Nesse caso, nossa dívida para com elas será imensa."

Crédito da imagem: Paula Nelson, para o The Big Picture

2 de mar. de 2011

Em defesa de David Fincher. Se é que ele precisa...


Nunca soube responder muito bem o motivo de achar A Rede Social o melhor e mais relevante filme dos dez indicados ao Oscar deste ano.

Falar que é apenas pelo roteiro é quase negligência. A Rede Social realmente é,  à primeira vista, um filme de roteiro. Os diálogos rápidos, a forma narrativa escolhida por Aaron Sorkin, tudo é primoroso.

Mas um roteiro não é tudo. É uma parte extremamente importante. Não é possível fazer um filme bom com um roteiro ruim. Mas um roteiro bom pode ser prejudicado por uma direção ruim.

Daí entra David Fincher, o diretor de "A Rede Social"

É essencial a importância do trabalho de Fincher em A Rede Social. Mas é difícil explicá-la, pois é quase imperceptível. E isso o torna um grande cineasta.

Ontem, me deparei com um artigo que deixa muita clara a importância de Fincher em A Rede Social  e no cinema hollywoodiano. Para John Pavlus, autor do artigo, Fincher é o melhor designer de Hollywood.

O designer trabalha para deixar os projetos dos quais participa o mais harmônico possível. Mas nunca devem esquecer do conceito por trás dele. No caso de Fincher, ele parece pensar cada plano, cada sequência, cada cena. O cineasta vê cada detalhe. Se os objetos estão lá é porque eles realmente importam ao filme.

Um dos melhores exemplos do autor é a cena de O Quarto do Pânico, quando Jodie Foster sai de seu isolamento para pegar um celular. Assista à sequência - que está lá no post de Pavlus -  e perceba a importância dos objetos, do celular, do abajur, do colchão. Veja a cena, os planos, o efeito da câmera lenta. Até o movimento dos cabelos de Foster parecem jogar a favor do clima de tensão.

As cenas do making of de Zodíaco também dão a dimensão da maturidade de Fincher (Clique aqui para assistí-las). Perceba como o diretor utiliza os efeitos especiais. É como Craig Barron, o supervisor de efeitos visuais de Zodíaco, disse ao falar de seu trabalho no filme: a idéia dos efeitos especiais neste caso, é o público não perceber que se trata de efeitos especiais.

E parece ser essa a personalidade de Fincher. O diretor pensa cada detalhe. Pensa cada plano. Mas, só será bem-sucedido se o público não perceber o trabalho que há por trás do filme que acabou de ver. Por isso, o elogio mais recorrente de A Rede Social é em relação ao roteiro. Fincher faz tudo parecer fácil, faz parecer que o roteiro é  realmente o grande protagonista. Mas não é. É essa é a maior prova da genialidade do diretor. E só rever algumas cenas cruciais. A sequência da regata é uma delas. A sequência de abertura é outra. Podemos dar os créditos dos diálogos metralhados por Rooney Mara e Jesse Eisenberg apenas ao roteiro de Aaron Sorkin. Mas a sequência se tornar a essência de todo o filme e da personalidade de Mark Zuckerberg... isso é David Fincher.

Por essas e outras, o Oscar de direção, e pior, o prêmio do Sindicato dos Diretores à Tom Hooper, são  ainda mais vergonhosos.

28 de fev. de 2011

Tudo pode dar certo. Mas tem que seguir a receita.


Você está em casa e resolve sair. Quer ir ao cinema. Pesquisa em um jornal ou na internet qual filme e qual sessão pegar. Decide ir naquele que está em exibição em todos os shoppings da cidade. Pode ser porque tem aquele ator que você gosta, ou o título te chamou a atenção, ou, se bobear, a resumidíssima sinopse do jornal te atraiu. Talvez pode ser a continuação daquele filmaço. Ou a adaptação do livro sensacional que você leu alguns meses atrás.

Você chega no shopping. Se for de carro, paga X no estacionamento. Na bilheteria paga 2Y pelo ingresso (o seu e de sua namorada ou namorado). Claro, não falta a pipoca tamanho G e a Coca-Cola tamanho GG, tudo isso pelo valor Z.

Depois de uma hora e meia, duas horas, você sai do cinema satisfeito. Se chegou a pensar no dinheiro, concluirá que o gasto de X + 2Y + Z valeu a pena. Mesmo se o filme for aquele que você já sabe o final no primeiro minuto da projeção, que tem personagens que você já viu mais de quinhentas vezes em outras obras diferentes, aqueles clichês que reconhece desde sempre. Sim. Pagou feliz para ver algo que você sabe como é, sabe como termina, já viu em trocentas outras oportunidades e não traz nada de novo. E não só você. Milhões de pessoas também tiveram um gasto parecido.

No início de "Tudo Pode Dar Certo", Boris, personagem de Larry David, coloca você, eu, o público, no foco da discussão. Ele olha para a câmera e diz: "Há uma plateia lotada olhando para nós. Eles pagaram grana alta pelos ingressos para que um idiota de Hollywood possa comprar uma piscina maior". E questiona o que você está fazendo sentado na sala de cinema: "Por que querem saber a minha história? Nos conhecemos? Nos gostamos?"

Pelo início, já é perceptível o grande objetivo de "Tudo Pode Dar Certo". Mas, como em muitas obras de Woody Allen, o tema pode passar despercebido e o filme ser absorvido como uma comédia engraçada e passageira. Também é assim com "Vicky Cristina Barcelona". Diálogos inspirados, personagens interessantes e situações cômicas não decepcionam os que estão à procura de um filme agradável, feito para rir. Mas "Tudo Pode Dar Certo" é mais.



O filme, ao longo de sua duração, escancara uma grande crítica à indústria hollywoodiana e ao público de cinema que ela criou. Aliás, ninguém melhor que Allen para falar sobre isso: um diretor novaiorquino, que não tem público no seu país e cujos projetos nenhum produtor americano está muito disposto a bancar.

Para realizar sua crítica, Allen brinca com a mesma fonte daqueles que questiona. Mas faz de forma consciente, proposital, exagerada e sarcástica. Essa escolha torna "Tudo Pode Dar Certo" uma grande obra. Se o público gasta seu dinheiro feliz com um filme-padrão, então é isto que eles terão.

O roteiro de qualquer bom filme precisa de um conflito. Mas um filme-padrão precisa deixar o conflito muito claro. Ele subestima seu público ao achar que o espectador não vai perceber algo um pouco mais sutil. Ora, quer conflito mais claro do que o relacionamento entre Boris, um velho, novaiorquino, hipocondríaco, mal-humorado, sarcástico, suicida (David) e Melody, uma garota do interior de 21 anos, ingênua, meio tapada, de coração maior que o mundo e feliz da vida (Evan Rachel Wood)? Em filmes mais clássicos, o personagem sofre uma mudança. Vai passando por episódios que o transformam. Começa de um jeito e termina de outro. Nas boas produções, a mudança é feita com personalidade, charme, inteligência e respeito ao público. No filme-padrão ela é óbvia e inverossímil. Em "Tudo Pode Dar Certo", a personagem de Patricia Clarkson, mãe da garota vivida por Evan Rachel Wood, começa sua participação como o clichê da mulher do interior: brega, religiosa, alcóolatra e preconceituosa. Ela vai para Nova York à procura da filha e, em questão de algumas cenas, vira o clichê da artista: liberada sexualmente, se relaciona com dois homens ao mesmo tempo, usa bandana na cabeça e é blasé. A mesma coisa com a personagem de Wood. Se no início Melody é a garota tapada que não fala nada muito profundo, do meio para o fim de "Tudo Pode Dar Certo" começa a proferir as teorias de Boris, mesmo não fazendo muito sentido no contexto em que ela as diz.

Os filmes-padrão também abusam dos clichês e personagens estereotipados. Allen também abusa, conscientemente e de forma crítica, dos estereótipos. Da mulher do interior, do gay (decorador, amante da arte), do sedutor (carismático, charmoso, bonito, insistente, vive em uma casa flutuante). E mais. O diretor brinca com uma das coisas que mais me irrita nos filmes-padrão. Neles, tudo é tão esquemático e fabricado que não há nenhum charme, autenticidade e personalidade. Para parecer que é original e fazer com que o público se sinta inteligente e, ainda por cima, conseguir amarrar tudo que está solto, esse tipo de obra usa o artifício do final surpreendente. Algo cai do céu para fechar todas as pontas. Você percebe isto em "Tudo Pode Dar Certo" quando algo, literalmente, cai do céu.

Mas a grande tacada de mestre de Allen é colocar em questão o grande criador de um filme-padrão. O roteirista-padrão. O roteirista, em uma definição bem rápida, é aquele que cria a história e os personagens. O roteirista-padrão cria, conscientemente, os personagens estereotipados, o conflito óbvio, a mudança inverossímil, os clichês. Ele sabe que está desenvolvendo uma trama que não tira o espectador de sua zona de conforto. Mas faz mesmo assim, pois é o que parece dar retorno para os produtores de Hollywood. É muito inteligente, portanto, a escolha de Larry David como o protagonista de "Tudo Pode Dar Certo" e é mais inteligente ainda a postura do personagem ao longo do filme.

David foi roteirista de "Saturday Night Live" e "Seinfeld", além de escrever e protagonizar o seriado "Curb Your Enthusiasm". Em "Tudo Pode Dar Certo", seu personagem, Boris, se autoproclama como um ser superior, um gênio. Também se dirige ao público várias vezes e todos os outros personagens pensam que é uma atitude insensata. No fim, ao conversar conosco, ele explica: "Viu? Sou o único que vê a situação inteira . É isso que eles querem dizer com gênio".

Ora, o roteirista-padrão é aquele que conhece os ingredientes de um filme-padrão, sabe como usá-los, sabe que não resultarão em um filme diferente de vários outros que já existem e sabe que, mesmo assim, terá um bom público, que irá pagar para ver repetecos. E na visão da indústria hollywoodiana, um cara que conhece os ingredientes e sabe fazer a receita que dê retorno financeiro, só pode ser um gênio.

A narrativa sacrificada

Apesar de serem bem diferentes a princípio, há uma semelhança entre o seriado "Glee" e "Comer, Rezar, Amar" no que diz respeito a Ryan Murphy, criador do primeiro e diretor e roteirista do segundo. Murphy não se leva nem um pouco a sério. Quer apenas divertir. E sacrifica a sua narrativa em nome desse entretenimento. Em outras palavras, suas histórias são apenas uma desculpa para cenas divertidas ou que causam bem-estar nos espectadores.



Vejamos o caso de "Glee". Seu pontapé inicial é dado por um professor de espanhol que tenta reerguer o coral do colégio onde trabalha (e onde estudou) que, um dia, foi motivo de orgulho. O projeto atrai uma série de alunos talentosos. Ele são, porém, os típicos losers americanos, minorias, nerds etc. Como se trata de um colégio conservador, o professor percebe que o projeto só atrairia financiamento se alguns alunos populares, bonitos e fortes se juntassem a eles.

Se "Glee" for analisado friamente, é perceptível que não tem uma estrutura sólida. Os personagens mudam demais. Só para deixar um exemplo, há um episódio no qual Rachel Barry, a protagonista, se apaixona perdidamente pelo professor. Em nenhum momento anterior ela deu a menor pista que sentiria qualquer afeição por ele. Mas, como é um episódio de baladas românticas, ninguém achou estranho mudar completamente a personalidade de um personagem se é para o bem da música. Seria algo como se Homer, em um episódio dos Simpsons, deixasse de ser o bobalhão que é e virasse um poço de sensatez.

É arriscado mudar a personalidade dos personagens em seriados. É um produto narrativo criado para durar um tempo maior. Portanto, quem o acompanha, se afeiçoa pelos personagens do jeito que eles são e uma mudança é um risco. Mas, em "Glee", a sensação que dá é que os episódios são criados a partir das cenas musicais e de referências à cultura pop. Dessa forma, sacrificar o roteiro em nome da diversão parece não ser um problema para Murphy.



Em "Comer, Rezar, Amar" existe a mesma falta de preocupação com a história em nome de um outro objetivo: fazer o público se sentir bem. É essa a intenção quando Liz Gilbert (Julia Roberts), na Itália, devora uma pizza inteira sem culpa, percebe que a numeração da calça que usava aumentou e conclui que “tudo bem, o mundo não mudou porque ela engordou, a vida não acabou porque ela não seguiu as regras da beleza”. Liz, ao longo do filme, aprende a curtir os prazeres da vida e percebe que tem muita coisa boa a se tirar disso. É um filme que tenta dar aquela sensação de espírito revigorado, de alma satisfeita. O que não surpreende, porque é o que a gente espera de um livro de auto-ajuda.

Daí nasce o perigo das adaptações desse tipo de obra. Não li muitas, mas elas não tem muito de visual. É, basicamente, um autor dando conselhos a partir de uma teoria qualquer ou relatando experiências pessoais que, de alguma forma, acreditam inspirar as pessoas. E, provavelmente, dão a sensação de saciedade, afinal, são livros que normalmente encabeçam a lista de mais vendidos. Se alguém resolve adaptar um livro de auto-ajuda para o cinema é preciso pensar em certos aspectos. Um roteirista pode adaptar a lista telefônica, se quiser. Mas, se vai se arriscar a isso, seria preciso um ponto de vista, uma história a ser contada e a ideia de que o cinema é uma arte, acima de tudo, visual.

Passamos quase duas horas e meia vendo a personagem de Julia Roberts em busca de equilíbrio. Mas como Ryan Murphy parece incapaz de demonstrar sua mudança através de atitudes, do desempenho de Roberts ou de qualquer outro artifício visual, ele se volta para o texto. Tudo que está mudando na vida de Gilbert é colocado através de diálogos. Ela e outras personagens parecem ser pseudo-gurus ambulantes. Mas as atitudes de Gilbert, no começo da viagem para o fim da viagem, não parecem ter uma mudança significativa. Por mais que ela fale, é difícil acreditar que algo realmente mudou.

Daí, retorno à comparação entre "Glee" e "Comer, Rezar, Amar". Se "Glee" sacrifica sua narrativa pela diversão e pela cultura pop, "Comer, Rezar, Amar" (o filme) pega de "Comer, Rezar, Amar" (o livro) uma narrativa que já não tinha como dar muito certo no cinema, apenas em nome do bem-estar. Mas a diferença é que "Glee" consegue se sustentar como um produto de entretenimento (superestimado, que não merece metade dos prêmios que ganha, mas, mesmo assim, divertido) com suas canções e referências. Já "Comer, Rezar, Amar" pode até enganar com suas mensagens de equilíbrio e de "busca do 'eu' interior". Não esconde, entretanto, um filme longo, superficial e uma protagonista com quem ninguém se importa muito e que não existe a favor de uma história. A jornada de Gilbert pode funcionar como um livro de auto-ajuda. Mas como cinema é frustrante.

Texto publicado em 21/10/2010 no site Cinematório

Quem não tem opção, caça com Sarah Jessica Parker


"Sex and the City 2" fez uma boa bilheteria de estreia. Na primeira semana arrecadou, ao redor do mundo, algo em torno dos 80 milhões de dólares. Para uma produção com críticas tão sofríveis, é uma bela bilheteria.

Isto quer dizer alguma coisa. Tudo bem, é uma sequência de um filme de sucesso. OK, é a adaptação de um seriado de TV aclamado. Mas também é um filme para mulheres. Não única e exclusivamente para elas, mas bem direcionado para o público feminino. E quem não tem grandes filmes, caça com Carrie Bradshaw.

É uma tendência para a qual os produtores de Hollywood ainda não se atentam: mulher ganha dinheiro também! Mulher quer gastar com coisas para ela! Mulher não é mais acessório para o marido levar para ver o novo do Stallone! Mulher está ávida por produtos para ela e isso não quer dizer pegar alguma coisa e pintar de rosa!

"Sex and the City 2" pode até não ser bom. O primeiro não é. Se não existisse o seriado, possivelmente não faria o mesmo sucesso. Afinal, pelo menos no longa original, o conservadorismo da trama bate de frente com o que eu imaginei sobre a série (vi alguns episódios que comprovam minha teoria, mas não assisti a todas as temporadas). No entanto, é inegável que o seriado da HBO representou algo para o sexo feminino. Algo que falava diretamente para elas. Por meia hora, a televisão falava das mulheres sem tratá-las como donas-de-casa ou esposas. Acredito que essa percepção teve um reflexo no primeiro filme e também no segundo.

A blogueira Anne Thompson fala algo interessante. Segundo ela, os críticos homens caíram em cima dos filmes "Sex and the City". Mas Thompson responde: "Esses longas não foram feitos para eles".

Talvez quando os produtores de Hollywood souberem como fazer um filme para elas (e estou falando da indústria cinematográfica americana, cheia de receitas para o sucesso em potencial) e praticarem o conhecimento adquirido, um longa de gosto questionável não fizesse tanto sucesso. Mas enquanto essas experiências forem esporádicas, elas irão atrás de Sarah Jessica Parker.

Postado originalmente em 03/06/2010 no site Cinematório

O que Crepúsculo trouxe de bom?


Nunca li um livro da saga "Crepúsculo". Até tentei. Não consegui passar da trigésima página. Achei chato. Mas isso não me dá o direito dar opinião sobre o livro como uma obra completa. Da mesma forma, os filmes. O dirigido por Catherine Hardwicke não me interessou. Também tentei ver quando passou na televisão, mas estava achando tudo tão bobo que preferi assistir a um seriado qualquer. Mas, novamente, não tenho a menor pretensão de escrever bem ou mal sobre um filme que não vi inteiro.

Minha postura, acho, é rara. Todo mundo fala mal de "Crepúsculo" e suas sequências sem sequer terem assistido ou lido as obras. Já sabem que o filme é ruim e não precisam comprovar. Talvez por todo oba-oba criado em torno dos livros de Stephanie Meyer ou pelo comportamento virtual de boa parte de seus fãs (não podem ouvir uma crítica negativa a Robert Pattinson que atacam os detratores como se suas vidas dependessem disto) ou até pelos vários comentários negativos feitos por gente que já leu ou viu o filme, criou-se uma antipatia geral em relação aos vampiros teens.

Não posso tecer opiniões – já que não li ou assisti – mas também não posso ser hipócrita. Não acho que "Crepúsculo" deve ser um exemplo de boa literatura ou bom cinema. Posso ser surpreendido, apesar de achar difícil. Mas o fenômeno trouxe benefícios para o mercado de entretenimento para adolescentes.

Estão sempre à procura de explicações dos fenômenos. Qualquer ingrediente de uma receita pode ser visto como essencial para seu sucesso. E, na indústria cultural, esse ingredientes serão explorados separadamente para ver se darão certo sozinhos. Alguns deles são duvidosos, mas pode existir alguma coisa bacana na mistura do fenômeno.

Por isso, a família Brontë agradece a Stephanie Meyer. Não sei em que circunstância o clássico “O Morro dos Ventos Uivantes” é citado na saga "Crepúsculo". Sei que é. E isso foi o suficiente para a obra de Emily Brontë ser notada de novo. E, na onda, “Jane Eyre”, da Irmã Charlotte Brontë, também entrou na lista de prioridades cinematográficas, assim como uma cinebiografia das autoras. E as adaptações dos dois romances serão contadas para os jovens. O que significa que talvez, pela primeira vez, uma turma de adolescentes terá contato com clássicos da literatura.

Por um minuto, podem parecer projetos desinteressantes. Mas quando ficamos sabendo dos cineastas por trás deles, a situação muda um pouco de figura. A nova versão cinematográfica de “O Morro dos Ventos Uivantes” será dirigida por Andrea Arnold, cineasta revelada em Cannes e realizadora do ótimo “Marcas da Vida” e do elogiado “Fish Tank”. Já “Jane Eyre” é um projeto de Cary Fukunaga, diretor de “Sim Nombre”, um dos filmes mais elogiados do ano passado, ganhador de diversos prêmios de produção estrangeira, mas que por algum motivo não chegou por aqui. São projetos que até podem ter sido pensados há mais tempo. Mas o fator “Crepúsculo” ajudou no sinal verde.

Outro ingrediente da saga vampiresca é o romance. Com o fenômeno, produtores concluíram que os adolescentes de hoje estão à procura de bons romances. E este foi o ponto de partida para o início da produção de um "Romeu e Julieta" para jovens, para o público dos fãs dos vampiros. Pode parecer um projeto oportunista, mas quem está por trás dele é Julian Fellowes, roteirista de projetos interessantes como "Assassinato em Gosford Park" e "A Jovem Rainha Vitória".

São filmes com potencial que, se não fosse pelo sucesso de “Crepúsculo”, talvez não saíriam do papel. Por isso, se você não suporta Bella Swan e companhia, pense nisso. Tudo sempre tem um lado bom.

Postado originalmente em 24/05/2010 no site Cinematório