4 de ago. de 2011
O Produto : ABACAXI
Texto publicitário para vender o produto abacaxi
SLOGAN: Docinho por dentro é o que importa
Ok. Tudo bem. Eu concordo. Posso não ser a coisa mais bonita do mundo. Esse amarelo sujo que me envolve não deve ser algo que te anime muito. E a coroa? Um verde morto que te espeta toda vez que você põe a mão... Mas experimenta tirar a minha roupa. Arranca essa coroa sem dó. Vai tirando essa casca esquisita de mim. Me deixa nu. Pronto. Agora encosta a sua boca em mim. Encosta vai, prometo que não vai se arrepender. Me morde. Me chupa. Viu como sou suculento? Gostoso? Me engole, vai!
(Trabalho do curso O Texto com Razão e Mais Emoção)
Projeto LADO B
NEWSLETTERS CEIS
No CEIS (Centro de Experimentação em Imagem e Som) escrevi e produzi uma série de newsletters que divulgavam acontecimentos da cena artística de Minas e do Brasil, inscrições para festivais, lançamentos de livros, coisas interessantes na web, entre outros assuntos relevantes para o Centro.
Abaixo estão os links de todos eles. E só clicar.
Uma observação: todos os textos estão como foram publicados e enviados originalmente. Foram redigidos entre 2007 e 2008, quando era estagiário do CEIS. Provavelmente, hoje, mudaria vários deles.
Impróprio para Menores
Buceta.
Foi a primeira vez que ouvi aquela palavra. Escutei bem. “Buceta”. Saiu da voz grave do meu pai. Sempre tive medo dela. Não era frequente, mas quando a ouvia , era a mesma voz pesada. Como um soco certeiro.
Outro dia cheguei em casa aos prantos e machucado. O som que me embrulha o estômago logo surgiu. O pai gritava sobre revidar, não levar desaforos para casa, não resolver os problemas como um macho deveria. Outra porrada. Sonora, mas, talvez, pior que a anterior. Deve ter sido esta a sensação da mãe. Após o “buceta” ela chorou. Alto. Escutei com a mesma clareza da temida voz.
Não podia ser bom.
Alguém chorar depois de ouvir alguma coisa só pode ter um significado muito ruim ou muito bom. Há alguns meses falei “eu te amo” para a mãe em uma apresentação da escola. Fui obrigado, na verdade. Era a parte final do teatrinho. Cada aluno ia até as suas mães e recitava “eu te amo”. Falamos a mesma coisa e falamos juntos. Olhei para o lado e vi Laurinha dizer “eu te amo", para o outro e vi Jonas dizer “eu te amo”, para frente e vi Sandra dizer “eu te amo”. Se tivéssemos ensaiado, poderia ter saído de lá um “eu te amo” sincronizado que valeria as palmas que foram batidas no fim do medíocre espetáculo mirim. Mesmo assim, o olho da mãe encheu de água e uma lágrima escorreu em sua bochecha. Ela sorria. Não entendi porque estava sorrindo. Ela me explicou sobre o choro de felicidade, de emoção, aquela coisa toda. Descobri que chorar poderia ser uma coisa boa. Mas conhecia as lágrimas de felicidade da minha mãe. Aquelas pós “buceta” não foram felizes. Chorava de tristeza. Ela nem precisava chorar para perceber que esta não era uma palavra legal. A voz do meu pai já dizia tudo.
Resolvi descobrir o que é “buceta”. Já sabia pesquisar no dicionário, afinal. Peguei o que uso na escola. Procurei naquele livrinho com a dificuldade de quem pouco o utiliza. Buba. Bubão. Bubo. Bubônico. Bucal. Bucéfalo. Buda. Nada. Lembrei-me de outro dicionário. Era imenso. Nunca vi ninguém por aqui o pegar para ler. Aliás, nunca vi alguém tê-lo comprado. Um dia, de repente, percebi sua presença. Era pesado, empoeirado e caía aos pedaços. Consegui levá-lo até minha escrivaninha. Benzidina. Benzido. Benzil. Benzilhão. Mais para frente. Bulático. Bulbáceo. Bulbar. Mais para trás. Bucéfalo. Bucelário. Bucentauro. Bucha. Nada. Mas será possível, pensei.
Logo, uma ideia mudou todo o rumo desta busca fadada ao fracasso.
Todo mundo falava “muchila”, mas na verdade se escrevia “mochila”. Devia ser esse o caso da “buceta”. Deve ser “boceta”. Voltei no dicionário. Bode. Bochecão. Bocelão. Bocelar. Bocelim. Bocelinho. Bocelino. Boceta. Enfim. Boceta. Caixinha redonda, oval ou oblonga. Caixa de rapé. Certo aparelho de pesca. Vulva. O pai nunca tinha falado em pescar antes. Ele sempre foi misterioso, de poucas palavras. Ou será que é por causa dessas caixas? Mas porque uma caixa ia fazer minha mãe chorar? Será que ele a atacou com uma? E, afinal, o que é vulva, meu Deus? Vulturídeos. Vulturino. Vulturno. Vulva. A parte exterior do aparelho genital da mulher. Geniculado. Gênio. Genioso. Genista. Genital. Relativo a geração. Que serve para geração. Geotrópico. Geotropismo. Geração. Ato de gerar. Conjunto das funções ou fenômenos pelos quais um ser organizado produz outro semelhante. Cada grau de filiação de pai e filho. Linhagem, estirpe, ascendência.Será que ele queria emprestada a parte exterior do aparelho da minha mãe que produz alguma coisa semelhante a alguma outra coisa? Dormi sem entender.
No dia seguinte, estávamos eu, a mãe e o pai sentados no sofá. Assistíamos a TV. Ela estava em uma ponta, ele na outra e eu no meio. A tela exibia uma mulher mais velha e uma mais nova. Do nada, a mais velha começou a bater na mais nova. Bater de verdade. Deu um tapa, vários chutes, jogou ela no chão, continuou a estapear. Chamou-a de nomes que se eu falasse perto da minha mãe seria eu quem levaria o tabefe. Intervalo. Olhei para os dois. Perguntei o que era “boceta”. Olharam para mim. Caras de espanto que nunca tinha visto antes. Brigaram um com o outro. Isso é coisa da sua família! Aqueles seus sobrinhos ficam ensinando bobagem pro menino! Ele só tem sete anos, que tipo de mãe é você? Fica dando liberdade para fazer qualquer coisa! Não quero mais ver ele andando com sua família! Você sempre foi um pai ausente! Eu, ausente? Dei tudo o que ele pediu! Mas desde quando isso é ser presente? Você sempre foi uma negação!
Decidi que nunca mais iria falar “boceta” de novo.
Um tempo depois da última vez que eu falei “b$%#@*]”, tive que repeti-la novamente. Meus pais me chamaram e disseram que iam se separar. Perguntei se era por causa da palavra. Que palavra? Aquela. Aquela qual? Fala a palavra de uma vez, não sei o que você quer dizer. Boceta. O que? É por isso que vocês se separaram? O olhar de espanto de meses atrás voltou. Eles fizeram todo um discurso que não prestei muita atenção.
Agora, meu pai já se foi. Minha mãe está sentada do meu lado no sofá. Hoje, o marido da mulher mais velha que bateu na mulher mais nova beijou uma terceira. E a esposa nem desconfiou.
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