10 de mar. de 2011

A ficção como realmente deveria ser

Encontrei o vídeo abaixo no site  Papo de Homem e como este é um blog que pretende falar de narrativas, acho válido postá-lo por aqui.

Poderia fazer toda uma introdução, mas o post do Papo de Homem está muito completo e bacana. Clique aqui para ler. 

Em resumo, é a paletra da escritora turca Elif Shakaf para o TED. Fala sobre como a ficção salvou uma garota tímida, isolada e vista como um estereótipo (a própria) e como a narrativa ficcional é vista como algo maior do que realmente é. Como se fosse obrigação da literatura reforçar os clichês culturais.

9 de mar. de 2011

Pela experiência completa da boa narrativa


As histórias nos envolvem. A não ser que o objetivo de seu criador seja outro, as boas histórias, sejam elas contadas em livros, cinema ou TV, nos envolvem.

Não é que elas nos fazem esquecer da realidade, como afirmou a toda-poderosa Oprah Winfrey ao apresentar a categoria de melhor documentário no Oscar deste ano. Segundo ela, enquanto os filmes de ficção nos fazem sair do mundo que vivemos, os documentários jogam as mazelas nas nossas caras. Ora, é preciso ser um pouco alienado para acreditar nisso. A ficção não é necessariamente uma válvula de escape. E os documentários não deixam de contar as suas histórias. E eles são bons quando nos fazem entrar nas narrativas que propõem. Estar imerso em uma história não é fugir da realidade. Ás vezes, é se envolver em uma outra realidade. Seja ela exposta através  de ficção ou documentário.

Porém, imersão total nas histórias cinematográficas se tornou uma missão quase impossível. Celulares, pacotes de alumínio, público mal-educado que conversa, comenta, namora, beija e esquece dos outros são apenas alguns problemas externos.

O pior é quando o clima é interrompido pelo próprio filme. Provavelmente você já se deparou com a marca de algum produto estampado na tela grande. Sim, existe uma propaganda no meio do filme e ela te fez sair completamente do processo de imersão que se iniciou há alguns minutos.

Não sou contra a inserção de publicidade nas obras. É até saudável para pensarmos em um mercado cinematográfico brasileiro, em uma indústria de filmes de qualidade, que cada vez mais se torna necessária. Mas o mínimo esperado é essa publicidade não prejudicar a experiência cinematográfica, não fazer o público sair da história para prestar atenção na marca. Uma propaganda deveria fluir com a narrativa. Além de respeitar o público, certamente traz mais resultados.

Por isso, fico satisfeito ao ler à seguinte matéria do Estadão, escrita por Alexandre Rodrigues:

Dois adolescentes recorrem a uma garrafa de Coca-Cola para turbinar sua performance num, digamos, curioso campeonato de arrotos. A cena combina com o cotidiano de qualquer garoto, mas não parece o roteiro ideal de uma propaganda de refrigerante. No entanto, fez sucesso no cinema, cada vez mais interessado em incluir publicidade no cotidiano de seus personagens.

Com a explosão de bilheteria do cinema nacional, que coleciona sucessos como Tropa de Elite 2 e seus mais de 1,2 milhão de espectadores, a publicidade busca mais espaço nas telas. Além dos comerciais entre trailers, aproveita janelas nos roteiros para inserir marcas e produtos no meio dos filmes.

Com o aumento do volume e do público de produções nacionais, o publicitário Antonio Jorge Pinheiro, dono da consultoria carioca Mídia 1, resolveu criar uma área específica só para pensar ações do gênero. Nada mais do que o velho "merchandising".

A Mídia 1 está por trás do campeonato de arrotos protagonizada no cinema por dois personagens do filme Desenrola, de Rosane Svartman. O filme levou mais de 300 mil espectadores ao cinema neste verão, a maioria adolescentes como os personagens do longa que conta a história de uma jovem de 16 anos que se vê sozinha em casa pela primeira vez. As cenas deixaram espaço para muitos produtos voltados para esse público.

Para ler a matéria completa, clique aqui

5 de mar. de 2011

Vik Muniz e a derrota de Lixo Extraordinário



Fizemos um filme sobre como tranformar lixo em dinheiro e deram um Oscar para um sobre como transformar dinheiro em lixo
A frase acima é de Vik Muniz, o artista plástico brasileiro e personagem do documentário "Lixo Extraordinário".

Só um comentário: bom cinema não é feito de boas intenções.

3 de mar. de 2011

E os Estados Unidos serão salvos pelos árabes


É muita coisa para ler em relação à convulsão árabe contra suas ditaduras.

Já li abordagens diversas. Focada na estrutura política da Líbia, textos que superestimam a importância  das redes sociais no Egito e Tunísia, outros mais equilibrados, outros que tentam interpretar a personalidades dos ditadores que caíram e ditadores que persistem. Sobre o papel de Obama no cenário explosivo, sobre o islamismo no contexto geral. Enfim. É muita coisa..

No meio do oceano, uma gota se destacou. Um excelente texto escrito por Andrew J. Bacevich, professor de História da Universidade de Boston. Ele diz que a revolução árabe é mérito dos próprios. E vai além. Diz como eles poderão salvar os Estados Unidos. Conhece? Aquele país que costuma ser o juíz do mundo.

Leitura obrigatória. Em inglês aqui e em português aqui.

"Se as massas muçulmanas que reivindicam liberdade política e oportunidades econômicas vencerem, terão conseguido isso não graças, mas apesar dos EUA. Entretanto, libertando-se por conta própria, elas também nos libertarão. Nossa cruzada mal concebida para determinar o destino que lhes cabe finalmente terminará. Nesse caso, nossa dívida para com elas será imensa."

Crédito da imagem: Paula Nelson, para o The Big Picture

2 de mar. de 2011

Em defesa de David Fincher. Se é que ele precisa...


Nunca soube responder muito bem o motivo de achar A Rede Social o melhor e mais relevante filme dos dez indicados ao Oscar deste ano.

Falar que é apenas pelo roteiro é quase negligência. A Rede Social realmente é,  à primeira vista, um filme de roteiro. Os diálogos rápidos, a forma narrativa escolhida por Aaron Sorkin, tudo é primoroso.

Mas um roteiro não é tudo. É uma parte extremamente importante. Não é possível fazer um filme bom com um roteiro ruim. Mas um roteiro bom pode ser prejudicado por uma direção ruim.

Daí entra David Fincher, o diretor de "A Rede Social"

É essencial a importância do trabalho de Fincher em A Rede Social. Mas é difícil explicá-la, pois é quase imperceptível. E isso o torna um grande cineasta.

Ontem, me deparei com um artigo que deixa muita clara a importância de Fincher em A Rede Social  e no cinema hollywoodiano. Para John Pavlus, autor do artigo, Fincher é o melhor designer de Hollywood.

O designer trabalha para deixar os projetos dos quais participa o mais harmônico possível. Mas nunca devem esquecer do conceito por trás dele. No caso de Fincher, ele parece pensar cada plano, cada sequência, cada cena. O cineasta vê cada detalhe. Se os objetos estão lá é porque eles realmente importam ao filme.

Um dos melhores exemplos do autor é a cena de O Quarto do Pânico, quando Jodie Foster sai de seu isolamento para pegar um celular. Assista à sequência - que está lá no post de Pavlus -  e perceba a importância dos objetos, do celular, do abajur, do colchão. Veja a cena, os planos, o efeito da câmera lenta. Até o movimento dos cabelos de Foster parecem jogar a favor do clima de tensão.

As cenas do making of de Zodíaco também dão a dimensão da maturidade de Fincher (Clique aqui para assistí-las). Perceba como o diretor utiliza os efeitos especiais. É como Craig Barron, o supervisor de efeitos visuais de Zodíaco, disse ao falar de seu trabalho no filme: a idéia dos efeitos especiais neste caso, é o público não perceber que se trata de efeitos especiais.

E parece ser essa a personalidade de Fincher. O diretor pensa cada detalhe. Pensa cada plano. Mas, só será bem-sucedido se o público não perceber o trabalho que há por trás do filme que acabou de ver. Por isso, o elogio mais recorrente de A Rede Social é em relação ao roteiro. Fincher faz tudo parecer fácil, faz parecer que o roteiro é  realmente o grande protagonista. Mas não é. É essa é a maior prova da genialidade do diretor. E só rever algumas cenas cruciais. A sequência da regata é uma delas. A sequência de abertura é outra. Podemos dar os créditos dos diálogos metralhados por Rooney Mara e Jesse Eisenberg apenas ao roteiro de Aaron Sorkin. Mas a sequência se tornar a essência de todo o filme e da personalidade de Mark Zuckerberg... isso é David Fincher.

Por essas e outras, o Oscar de direção, e pior, o prêmio do Sindicato dos Diretores à Tom Hooper, são  ainda mais vergonhosos.